sábado, 14 de julho de 2018

O último encontro

Há mais de um mês não o via, já me sentia preocupada sentindo sua falta, quando na tarde de domingo de 24.06.18 meu irmão diz: "teu pai tá aí". Por algum motivo meu coração sentiu uma alegria enorme, quando o encontrei no corredor da minha casa, o abracei e disse: "até que em fim o senhor resolveu aparecer, né painho?", me certifiquei de que ele não havia almoçado ainda e fui cozinhar para ele. Ele comeu tomando um café (pequeno, como ele dizia) comigo, na mesa, conversamos sobre várias coisas, ele falou como tinha sido seus últimos dias, falou sobre a semana que trabalhou na praia de Carapibus (como jardineiro, esta era a profissão do meu pai), sobre seus planos e compromissos das próximas semanas... Depois do tempo que gastamos na hora do almoço com tanta conversa, fomos separar algumas roupas dele que ele precisaria usar nos próximos dias. Ele estava usando uma calça jeans suja, de zíper quebrado que pediu para que eu jogasse fora, mas sem que ele soubesse, a calça dele foi lavada e eu a consertei, consertei para lhe entregar na próxima vez que o visse. Depois de mais de uma hora separando essas roupas, pedi para cortar suas unhas porque estavam feias e ele tinha compromisso no dia seguinte, então cortei e lixei todas as suas unhas enquanto conversávamos no sofá da sala, ele tomando um café, fumando um cigarro e assistindo "72 animais perigosos" da Netflix, fazendo comentários sobre os animais que estava vendo no documentário. Durante essa conversa ele falou como sentia orgulho da minha irmã e de mim, falou sobre seus planos de nos ajudar com a universidade...
Mas tarde, devido à hora já avançada e por ser noite de comemoração junina, pedimos, minha irmã e eu, para que ele dormisse na nossa casa naquela noite e ele aceitou. Ele tomou banho para dormir e jantou enquanto conversávamos na sala. Lhe dei uma camisa para ele usar que eu havia pego para mim, mas como era dele, eu lhe dei. Durante aqueles últimos minutos na sala, por algum motivo olhei para o meu pai e chorei. Disfarcei o choro para que ele não percebesse e tirei três fotos dele sem que ele visse. Era como se eu sentisse o que estava por vir. Por fim, nos despedimos, lhe desejei uma boa noite e fui dormir. No dia seguinte, como ele saíra muito cedo com minha irmã, não o vi partindo, mas no fim do dia ele me ligou as 18:23h para contar como tinha sido seu dia, lhe perguntei se ele tinha almoçado a comida que fiz para ele almoçar e ele disse que comeria na janta quando chegasse em casa, e que estava a caminho. Depois de 21m e 10s ele desligou e voltou a ligar as 18:55h, quando já estava em casa, nos falamos por 2m e 11s até que nos despedimos, ele me abençoou e desligou. Ao fim da semana fiquei um pouco preocupada, pois durante a nossa conversa naquele almoço do domingo, ele havia dito que voltaria na quinta-feira para almoçar conosco e pegar suas roupas limpas, mas não voltou e não mais ligou. Na noite de domingo, 08.07.18 as 23:35h, minha meia-irmã liga para me informar que meu pai havia falecido. Não disse detalhes, não falou hora exata, não disse quase nada a respeito, apenas que ele dormiu e não acordou, e que provavelmente a causa da morte tinha sido infarto. A dor, apenas ela me fez companhia naquele momento, agarrada a mim e repetindo a todo instante ao meu ouvido, a notícia que eu acabara de receber... A dor, ela é insensível, é fria e cruel, e foi ali, naquele momento, que ela me disse que não me deixaria mais sozinha. Foi exatamente assim que me senti. Fiquei em choque, tentando aceitar de forma racional por saber que é o curso natural da vida, mas doía, doía muito saber que aqueles dois minutos de ligação tinha sido a última vez que ouviria a voz do meu pai me chamando de filha e me abençoando. Doía saber que não lhe mostraria com orgulho a calça que tinha consertado para ele. Doía saber que não veria mais meu pai brincando com os gatos de casa, sempre procurando por BW e Belinha. Doía saber que meu pai não contaria mais as piadas que ele sempre repetia como se fosse a primeira vez que contava. Eu não veria mais meu pai chegando todo sem jeito em casa como uma criança, desconfiado por passar vários dias sem dar notícias. Doía saber que eu teria que sepultar meu pai exatamente uma semana antes do seu aniversário...
Na segunda-feira, dia seguinte, fui com meu primo ao quarto onde meu pai vivia, encontrei a camisa que lhe dei para vestir na última noite que ele esteve comigo, em casa, e ela está agora em minhas mãos com o cheirinho do meu pai, e é nela que seco minhas lágrimas quando penso nele. Tenho certeza que partiu sabendo que eu o amava.
Ele era um índio, uma boa pessoa, seu coração não via maldade em ninguém, era amante da natureza, das criações de Deus, amava os animais e nunca teve coragem de fazer mal a um inseto. Ele gostava de aquários como eu, de praias, de pimenta na comida como eu e de cebola. Meu pai fazia graça para esconder as dores que sentia, ele era um homem forte e cheio de coragem, que mesmo com tantos pesares nunca deixou de ter fé. Tenho orgulho de ser como meu pai e de ter seu sobrenome.
Estas foram palavras de alguém que sofre com a perda do seu pai.
Meu pai vive e continuará vivo em mim.


O pincelar das mãos de Deus...

Eu vi o escorrego dos
Anjos no céu, feitos por um pincel
De tinta branca pelas mãos
Do Criador,
Que o trouxe da direção
Do sol, a majestosa estrela
Do dia, que brilha
E emana sua luz para tudo
Que na terra existe.
São os olhos de Deus...